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Velocidade três

 

Depois de ter começado uns cinco textos de forma patética, melhor eu ir dormir. O texto que eu tenho agora na cabeça só faria sentido se publicado no sábado, dia quatorze. Nem isso eu consegui. Cheguei tarde e publiquei à zero hora do dia quinze. Deletei. Apenas um segundo e todo sentido foi embora. Muita coisa funciona assim, pelo menos pra mim. Agora o sábado virou ontem e eu perdi meu texto. Deletei sem dó, como protesto a mim mesma, contra este dia que já vai tarde. Eu bem que pensei hoje às onze e meia da manhã, que o melhor era não levantar da cama. E de fato foi um dia ordinário e sem sentido. Que nem merecia o texto deletado.

 

Algumas frases conseguem me incomodar de verdade. Algumas delas, uma vez ditas, não saem da minha memória nunca mais. Outras eu tento esquecer e às vezes até consigo. É por isso que eu tenho pensado em parar de ir às aulas de semiótica. Encontrar sentido em tudo uma hora cansa. E o professor faz questão de mostrar as vírgulas. As pausas. Pra ele não importa se a pessoa quis ou não dizer tal coisa, o que importa é que ela disse. O professor me ensinou a colecionar mal-entendidos.

 

Hoje eu acordei pra tentar salvar um dia que já nasceu desenganado. Fiz um esforço hercúleo, como diz uma amiga, mas não teve jeito. Era um fracasso anunciado. Pulei de um carro em movimento. E não tem nada de poético nisso. A minha ferida é superficial e arde pra eu lembrar que os palhaços são tristes. E não tem nada de poético nisso também. Amanhã ela já sara e tudo fica resolvido. É que o dia nasceu pra ser assim mesmo, como uma dessas frases do meu estoque de incômodos. Amanhã é outra história.



Escrito por bárbara às 00h00
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Livrai-os do mal, amém

 

Ouvi dizer que já fizeram uma pesquisa sobre como as pessoas se transformam quando estão dentro dos seus carros. Não sei qual foi o resultado da estatística, mas uma grande porcentagem das pessoas observadas de fato faziam dentro do carro coisas que jamais fariam fora dele, na rua. Colocam o dedo no nariz, xingam, cantam, conversam sozinhas.

 

Eu estava cantando. Alto. E já estava chegando perto de casa quando tive que frear bruscamente. Um gato branco decidiu atravessar a rua correndo enquanto eu cantava “you really got me, you really got me”. Parei o carro assustada e não vi o gato. Ele não fugiu. Estava embaixo do carro. Embaixo de uma das rodas, talvez. Olhei para o lado e vi a dona com as duas mãos tampando a boca e um olhar apavorado, estática. Continuei imóvel. A dona também. Depois de alguns segundos vi um vulto branco ligeiro saindo de baixo do carro. O gato. São e salvo. A dona levou as mãos à testa e saiu atrás do bicho. Eu segui em frente. Com o coração na boca.

 

Certa vez eu vi um cachorro sendo atropelado. A paisagem era das mais belas, eu esperava os carros pararem para atravessar a avenida que beira o mar na Barra da Tijuca, no Rio. Ninguém avisou o cachorro que ele também tinha que esperar. Ele parecia muito feliz enquanto corria em direção à praia. Foi atingido antes de chegar. O carro seguiu adiante. O cachorro uivava de dor e, todo machucado, ainda conseguiu correr para algum lugar. Eu era bem nova e a imagem ficou um bom tempo na minha cabeça. Somente aquela imagem e não o resto. Não sei o que aconteceu com o cachorro depois. Só sei que ele fugiu pra longe daquele lugar e eu fui pra praia.

 

O gato estava vivo. Eu respirei aliviada e assisti ao reencontro com a dona pelo retrovisor. Pensei no cachorro da Barra da Tijuca. E pensei em escrever um texto, depois de tanto tempo. Pode parecer estranho, mas essa noite eu agradeci pela vida do gato. E pedi mais outras sete para outro que está precisando.

Escrito por bárbara às 14h32
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Dos meus registros tardios de viagem:

 

“(...) Tinha dias em que eu acordava de manhã e andava pelas ruas até anoitecer, sem olhar no mapa. Quando eu cansava, ia até a estação e pegava um trem para qualquer cidade que desse na telha. Foi assim que cheguei em Viena, Budapeste, Praga, Berlin, Amsterdã. Eu entrava num trem, acordava em um país diferente e passava meus dias andando até anoitecer. Eu não tinha pressa, nem rotas ou grupos para seguir. Não tinha bilhetes comprados nem reservas de hotel. Não tinha objetivo. Eu acordava e a cidade estava lá.”

 

Um pé aqui e outro sei lá

 

De volta agora ao Brasil talvez meu ritmo ainda não tenha desacelerado. Meus dias em Londrina têm sido de um conforto angustiante. Eu ainda penso que estou a passeio. Com a cabeça em algum outro lugar que eu não sei exatamente qual é. E foi num lapso que desci na rodoviária em São Paulo sem saber o que é que eu tinha ido fazer lá. Inventei dois os três compromissos para responder quando alguém perguntasse, mas eu não tinha rumo algum. Ainda estava no esquema de entrar num trem, chegar num lugar e andar até anoitecer, pra só então pensar no que vem depois. Eu acordei e São Paulo estava lá. Só que dessa vez eu não estava sozinha. Eu andava e tinha alguém do meu lado não entendendo nada. Foi difícil criar propósitos convincentes.

 

Essa semana peguei outro ônibus de novo com alguém do meu lado querendo explicações. Assumi deslavadamente minha total falta de motivo da viagem e confessei minha vontade inexplicável de simplesmente estar de volta à estrada. Eu acordei e Curitiba estava lá. Mais alguns passeios e reencontros. Depois de alguns dias meio desnorteada, me veio a estranha necessidade de ir embora pra casa. Me vi na rodoviária mais uma vez em uma partida impulsiva. Não deu pra explicar que o incômodo que eu estava sentindo nada tinha a ver com eles. Inventei problemas para resolver, reuniões para atender. Me acharam estranha e não me importei. Eu acordei e Londrina estava lá. Ainda noite, às cinco da manhã. Meus compromissos dessa vez eram completamente adiáveis, mas cumpri a todos como se empenho e disposição fossem resoluções de ano-novo. Eu só queria estar em casa.

Agora não faz nem dois dias e minha vontade de casa já passou. Em pouco mais de vinte e quatro horas em Londrina já planejei mais quatro viagens para o próximo mês, antes da hora de acordar pra vida de vez – voltar às aulas, procurar emprego, esse tipo de atitude. Amanhã São Paulo novamente, quinta-feira Guarujá, carnaval em Ribeirão Preto e formatura em Curitiba mais uma vez. Quando 2008 começar – lá no final de fevereiro – eu prometo que sossego num lugar só.



Escrito por bárbara às 00h21

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espaço reservado para um texto de ano-novo

Escrito por bárbara às 20h26
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Eu aguardava minha mochila na esteira quando comecei a ouvir de longe uma canção familiar. "When I’m home, everything seems to be right (...)". Malas de todos os tamanhos e cores desfilavam na minha frente e nada da minha judiada mochila. Do outro lado do vidro, onde eu ainda não conseguia ver, começa outra canção. "Get back, get back, get back to where you once belonged". Eu ainda imaginava que a cantoria poderia ser para outra pessoa, até começar a ouvir gente gritando meu nome e coisas do tipo "Bárbara, cadê você, eu vim aqui só pra te ver". Poderia haver outra Bárbara no meu vôo, mas uma Bárbara com uma mãe louca igual a minha, muito difícil. Quando meu irmão voltou da Paraíba tinha um grupo de forró no aeroporto. Eu volto da Inglaterra e tem uma banda tocando Beatles. E faixas. Umas cinco, bem coloridas, com direito a papel laminado e purpurina me desejando boas-vindas. I got back to where I still belong.

Não me lembro a ordem dos abraços, mas foram muitos. Umas vinte e cinco pessoas que aguardaram os quarenta e cinco minutos de atraso do meu vôo. Abandonei a bagagem no meio do caminho pra abraçar primeiro a mãe, depois os irmãos, o pai. E por aí vai. Na maioria amigos de infância. Penso nos que não estavam no aeroporto, mas que ainda vou rever e sorrio. Nenhum motivo maior me traria de volta a não ser esses poucos rostos familiares que eu posso chamar de lar.

Ao pisar em São Paulo, antes da conexão para Londrina, o primeiro choque – o calor. Começo a tirar as blusas e a suar carregando o casaco pesado. Um ano e oito meses longe desse clima que para ser sincera, eu nunca gostei muito. Me fazia falta um sol de vez em quando, um céu bem azul, uma sombra com brisa e caldo de cana gelado, mas não senti nem um pouco de saudade de entrar num carro quente sem ar-condicionado, de sair do banho e já querer tomar outro, de caminhar meia quadra e já sentir gotas de suor escorrendo nas costas. Disso eu nunca senti falta e mesmo debaixo de neve ou em dias em que o vento parecia cortar meu rosto e eu não sentia mais os dedos dos pés eu ainda pensava que preferia congelar a ficar grudando e escorrendo de suor.

Depois do calor, outros choques imediatos e ridículos. Todo mundo falando português. Tudo bem que eu estava em Londres, onde chove brasileiro e que com facilidade dá pra esquecer a saudade do Brasil (ou relembrar motivos de ter ido embora) – lá se encontra de tudo, para todos os gostos: guaraná antártica, pão-de-queijo, picanha, paçoca, farofa, pinga, goiabada, suco de maracujá, açaí, erva mate, TV Globo, Igreja Universal, revista Caras. Todos os dias se encontra pelo menos uma pessoa na rua falando português – inclusive acredito que Minas Gerais e Goiás estejam despovoados. Mas foi uma sensação boa saber que a partir daquela hora eu poderia falar uma só língua – a minha língua – com todo mundo. Principalmente depois de ter passado um mês viajando por sete países diferentes, tendo como única forma de comunicação uma língua que não é a sua. Chega uma hora que tudo o que você quer é falar sem precisar pensar, usar suas palavras preferidas, escutar todas conversas paralelas e saber que todo mundo entende tudo o que você está falando.

Cheguei em casa e meu quarto estava intacto, exceto pelos móveis novos que minha mãe fez questão de comprar, parcelados em dez vezes sem juros. Eu não precisava de tanto agrado, mas depois que fui descobrir que foi porque meu irmão conseguiu quebrar minha cama em seu período de ocupação em meu estimado aposento. Mas meus livros, meus CDs, minha bagunça estava toda lá, esperando por mim. Eu e uma grande amiga italiana que conheci em Londres concordamos com a mesma coisa: os pais ingleses são cruéis. Na Inglaterra, quando o filho chega na idade de dezesseis, dezessete anos, já sai de casa pra estudar ou trabalhar e, a partir daí, tem que se virar. Até aí tudo bem, mas a crueldade dos pais é que, geralmente, eles pegam o quarto do filho e transformam numa sala de TV, num escritório, numa sala de ginástica, biblioteca. Dão um fim em qualquer vestígio do que um dia foi o quarto do filho e tocam a vida pra frente. Doam os brinquedos, jogam no lixo os trabalhos da escola, os álbuns de figurinhas, os gibis. Se o filho resolver voltar, ele não tem mais seu quarto. Aliás, se ele quiser voltar, será um tipo de fracasso vergonhoso. Crueldade. E o que acaba acontecendo é que o filho vai visitar os pais só no Natal e olha lá. Chegar em casa e encontrar meu quarto intacto foi um tipo de conforto inexplicável. Minha amiga tem seu quarto também intacto na Itália, com seus livros e bonecas na estante mesmo depois de seis anos longe. Talvez a crueldade seja nossa, dos filhos, mas prefiro pensar que não.

Mal cheguei em casa e já tem um irmão se preparando pra ir embora. A família está completa depois de três anos, mas por poucos dias. Quando perguntam para a minha mãe se eu vim pra ficar, ela responde que não sabe, mas que o que ela faz é deixar a gente voar e deixar o ninho preparado para que a gente queira voltar.



Escrito por bárbara às 16h30
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Quero com palmas da próxima vez

Eu não acredito em pessoas que tentam ignorar seus aniversários. Talvez porque eu seja uma pessoa que acredita em aniversários, em Natal, Ano-Novo, Páscoa, Dia da Criança, das Mães, dos Pais, dos Namorados, inclusive aniversários de namoro. Acredito em datas, em momentos, em ciclos. Gosto também de pretextos para comemorações. E aniversário, em especial, é uma data que eu gosto de comemorar – o meu e o dos outros. Gosto de me sentir lembrada no dia em que nasci e de estar com pessoas que me fazem bem. Isso é uma coisa normal, suponho. Portanto, não tente me convencer de que estará feliz sozinho trancado em sua casa na noite do seu aniversário assistindo a televisão e comendo chocolate. Pode até ser verdade, mas para mim é difícil ter empatia por você. Porque eu acredito em abraços, cartões, telefonemas, em apagar velinhas, em brigadeiro e beijinho, em presentes, em restaurante preferido, em festa e até em sentar no bar e encher a cara. Acredito que todo mundo que te olha na rua sabe que o dia é seu. 

Por isso acordei na sexta-feira e dei bom dia para o motorista do ônibus. Ele sorriu porque era meu aniversário. Sexta-feira é o meu dia da semana preferido. Sentei no banco dos deficientes físicos, idosos e grávidas, porque era meu aniversário. Estava vestindo minha camiseta preferida, minhas meias preferidas, mas o tênis de todos os dias – meu preferido. Gastei um tempo maior do que o normal na maquiagem, mas sem exageros, pois embora seja aniversário, não se sai de casa com a maquiagem preferida logo de manhã. Coloquei meus brincos novos. No fone-de-ouvido, a minha banda preferida. Apesar de frio, estava fazendo sol, porque era meu aniversário. E fui trabalhar. Não é a melhor coisa para se fazer no dia do aniversário, mas nem isso atrapalharia meu humor. Mal entro no trabalho e já ouço um “Happy Birthday” todo sorridente de uma colega. Eu já havia recebido os parabéns à meia-noite, outro ao acordar e durante o dia foi uma sucessão de “Feliz-Aniversários” em várias línguas seguidos de abraços. Abraço é bom em qualquer dia do ano.

Não tive nenhum cliente chato nessa sexta-feira, pois todos eles sabiam que era meu aniversário. O trabalho acabou rápido e todo mundo me desejou uma boa tarde e disse que me veria de noite, na festa. Eu fui buscar o bolo, o meu preferido, feito especialmente pela minha tia. A tarde também passou rápido e, entre alguns poucos telefonemas e mensagens de celular, já era noite. Coloquei meu sapato preferido, o verde – a cor que mais gosto – e cheguei atrasada, como de costume. Não era o meu restaurante preferido, nem  meus melhores amigos, mas o restaurante em que eu trabalho com os meus colegas que eu gosto. Pessoas que me fazem bem. Caso contrário, eu não estaria com eles no dia do meu aniversário. E para minha surpresa, quase todo mundo foi, até mesmo as minhas gerentes. Eu tentava fotografar a festa com a câmera que me dei de presente no dia anterior, mas percebi que precisaria dar uma boa lida no manual de instrução antes de me arriscar. Momento ótimo, câmera boa e fotografias péssimas. Talvez a fotógrafa é que seja ruim. De qualquer forma acho que não vou precisar de fotografias para me lembrar desse dia. 

A noite, assim como o dia, passou rápido demais. Quando vi, não tinha mais bolo. Antes de me cantarem “Parabéns pra você” em inglês e sem bater palmas, ganhei um discurso. A minha gerente que eu nunca sei se amo ou se odeio abriu uma garrafa de champanhe e disse que todos eles queriam me desejar um feliz aniversário e boa sorte na minha nova fase. Que eles estavam todos lá reunidos tanto pelo meu dia como para uma despedida. E que eu iria fazer falta. Me deram um presente e um cartão assinado por todos. Alguns colegas escreveram “Feliz cumpleaños” ou algo do tipo, bem orgulhosos por estarem me dando os parabéns na “minha língua”. Já cansei de explicar que eu não falo espanhol. Me perguntavam se escreveram certo e eu respondia “perfeito”. Vale a intenção. Não bebi o champanhe, o que causou um momento de indignação entre alguns, mas taí outra coisa que cansei de explicar. Pra mim é simples: uns não comem carne; eu não bebo álcool. Não bebo e não falo espanhol, mas tem gente que não entende. 

Lembrei do meu último aniversário, o primeiro na Inglaterra. Eu havia acabado de voltar de Liverpool, tinha largado meu emprego e arranjado um novo amigo. Acordei tarde e o dia estava cinza, mas pra mim fazia sol, pois era meu aniversário. Meu tio estava trabalhando, o namorado também, então resolvi passar o dia com alguém que estivesse à toa como eu e que pudesse fazer meu dia mais colorido. Passei a tarde esparramada no sofá comendo chocolate, tomando chá e assistindo o anthology dos Beatles. Eu não estava sozinha. Fomos de noite para um pub, eu, meu novo amigo, meu tio e mais dois colegas. Faltou o namorado, mas o motivo da ausência era compreensível e, fora isso, quem me interessava daqui estava comigo. Mais um aniversário sem fotografias, mas que não passou em branco e o cinza era só lá fora.

Foi o segundo aniversário na Inglaterra, longe de casa. Sinto que a saudade, apesar de continuar grande, agora é um pouco menos doída, talvez calejada. Um ano e meio não é tanto assim, mas é o suficiente para aprender algumas coisas. Uma coisa estranha que aprendi é que dá pra sobreviver longe de quem se ama, mas eu não quero somente sobreviver, por isso escolhi voltar. Não tive o que reclamar desse meu aniversário, mas no próximo eu quero “Parabéns pra você” em português e com palmas. Mais uma fase que eu encerro, com dificuldade, para uma nova começar. Outro dia eu expliquei para a minha prima Sofia que o dente dela ia cair porque tinha um novo querendo nascer e empurrando o dente velho. Que ela tinha que tomar coragem e puxar o dente mole de uma vez só. A Sofia é corajosa. Tá com um sorriso lindo cheio de dentes novos e janelas. Vou procurar sempre pensar em dentes-de-leite nessas horas.



Escrito por bárbara às 00h11
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Eu, Hannah, Lisa, Anna, Scott e Corrine conversando sobre mochilões pela Europa. Minha conclusão sobre o que os ingleses pensam sobre o Brasil:

 

“Sabe como é, viajar um mês sozinha, por lugares desconhecidos, eu estou com um pouco de medo”

“Medo? Mas você não é brasileira?

“Pois é, mas sei lá, talvez algumas cidades por aqui sejam meio perigosas”

“Perigosas? Mas você não mora no Brasil?”

“Moro”

“Então pode viajar tranqüila pra qualquer lugar”.

 

Não concordei. Mas tive que ficar quieta. Não quero concordar que o Brasil seja o lugar mais perigoso do mundo, mas que a Europa é tranqüila para viajar, nisso eu vou ter que confiar.

Escrito por bárbara às 22h36
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It’s not nostalgia, it’s not loneliness

 

Saudade é uma coisa que não se explica em inglês. Nem em qualquer outra língua. Saudade se sente em português. O que eu posso dizer para eles é que “I miss my family”, “I miss my friends”, “I miss home”, mas ainda não achei uma palavra equivalente para explicar que sinto falta até do barulho da panela de pressão e do cheiro de alho e cebola dourando na panela ao meio-dia na minha casa. Que sinto falta da época em que eu chegava na faculdade, sempre atrasada, e encontrava todos os dias aquele mesmo seleto grupo de colegas adoráveis – amigos. Não consigo encontrar também nenhuma palavra ou expressão em inglês que explique a falta que eu sinto de chegar na outra faculdade, mais atrasada ainda, e encontrar aquela uma, entre tantos colegas, a única amiga – de infância, adolescência e por aí em diante. Das conversas intermináveis sobre a vida, o universo e tudo mais. Não se explica em inglês a falta que sinto de sentar na escadaria do prédio com a irmã que eu escolhi pra mim e passar madrugadas conversando, dando risada ou rodando no ar chumaços de “bombril” pegando fogo como duas crianças. Sinto falta das nossas atípicas diversões. Em inglês eu também ainda não consigo explicar a falta que eu sinto da única pessoa no mundo que consegue me fazer chorar com uma única palavra. Qualquer palavra. Quando algum problema está acontecendo comigo, eu chego de mansinho na cama dela e só de olhar nos meus olhos ela quase sempre adivinha o que é. Geralmente a palavra-gatilho que dispara meu choro é um terno e amoroso “fala”. Daí eu não falo, eu choro. Aqui não dá pra explicar a falta que faz a sintonia incomparável que tenho com as duas pessoas mais adoráveis do meu planeta. Aqueles dois que apareceram na minha casa depois que eu nasci e com quem eu tive que dividir a minha mãe. Desde cedo eu não gosto de competir e deixei eles robarem a mãe pra eles. Ser a mais velha me fez meio independente, mas não ameniza a falta que todos eles me fazem. Sinto falta dos tempos remotos em que eu era a maior, me achava moleque e ganhava as brigas. E até dos tempos em que eu já não era a maior e saía das brigas com vários fios de cabelo a menos na cabeça. Sinto falta do meu companheiro pra todas as ocasiões – desde ir comprar carne no açougue até como co-piloto, me guiando verbalmente enquanto eu dirigia o carro inconseqüentemente em direção a casa na volta do oftalmologista com a pupila dilatada – aquele que eu ainda dou a mão para atravessar a rua e com quem eu nunca briguei. O que faz mais falta se não está em casa. E sinto falta daquele com quem eu ficava “de mal” umas três vezes por semana e que agora faz quase três anos que eu não vejo. Não dá pra traduzir em inglês a falta que eu sinto de quando acordávamos de manhã no mesmo horário para irmos para a aula, trombávamos no corredor sem dar “bom dia”, tomávamos nossos cereais sentados na mesma mesa olhando para os azulejos da parede sem trocar uma palavra, escovávamos os dentes compartilhando a mesma pia e andávamos para a escola em silêncio, tranqüilos. Outras vezes correndo, atrasada, enquanto ele, sempre pontual, andava quarteirões à frente. Havia raros dias em que os dois acordavam com vontade de falar, então andávamos para a escola como dois idiotas falantes, ou dias em que a gente não conversava, mas cantava. Ao pensar nos meus irmãos chego à conclusão de que dá pra se testar o nível de intimidade com uma pessoa através do silêncio que se tem com ela. Se o silêncio é constrangedor ou incômodo, a intimidade é pouca. E a sintonia também. Com eles a comunicação é eficiente mesmo sem palavras. E o amor é imenso. Ainda não entendo pessoas que brigam sério com irmãos. Que passam anos sem se falar. Pra mim é gente que tem uma falha séria no coração. Ando sentindo falta de muita coisa, mas nem tudo eu consigo traduzir, nem tudo eu consigo resolver. Quanto mais eu aprendo sobre outras línguas, mais eu gosto de português. Só assim para explicar a “saudade”, segundo uma pesquisada divulgada pela BBC de Londres, a “sétima palavra mais difícil de traduzir” no mundo. Tentei explicar minha saudade essa semana para uma colega inglesa e ela concordou que lhe faltava palavras para explicar o que eu sentia em inglês. Então eu comecei a me aprofundar no tema e a coisa complicou mais ainda. Eu disse que sentia saudade de alguém que está perto fisicamente, mas extrema e dolorosamente distante de coração. Que a angústia da palavra saudade é uma agonia que envolve passado, presente e futuro, de uma forma às vezes esperançosa, outras vezes sem esperança alguma. Que a saudade dessa pessoa era duplamente angustiante por não saber se é uma ausência passageira ou permanente. Depois tentei explicar outra saudade, de alguém que estou longe por opção. Dessa escolhi ficar longe fisicamente, mas estou muito perto de coração. Que essa saudade dói, mas não maltrata tanto como a outra. O tipo de saudade saudável. E por fim confundi ainda mais a cabeça da minha pobre colega com seu pobre vocabulário anglo-saxão. Eu disse que já sentia saudade de uma ausência que ainda não existe, uma saudade antecipada. Dela e de várias pessoas que conheci aqui. Expliquei que já andava sofrendo por antecedência por deixar Londres e encerrar uma fase tão boa da minha vida. Mas que por enquanto era hora de dar um jeito nas saudades mais urgentes, que estão lá longe, pra depois, num futuro incerto, talvez resolver a saudade que eu vou ter desse presente aqui.



Escrito por bárbara às 23h16
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Rolling Stones - parte 2

 

ENTRE OUTRAS MIL, ÉS TU BRASIL

 

Hoje eu me arrependo de não ter registrado minhas primeiras impressões de Londres. Fico agora tentando lembrar os detalhes da minha chegada, os primeiros dias, primeiros choques, primeiros contatos e não lembro mais de tudo. Mas lembro que uma das coisas que mais me assustaram de início foi o tanto de brasileiros que se encontra por aqui. Eu não imaginava. Aliás, eu não imaginava a grande mistura de raças que é isso aqui. Eu tinha noção, mas não conseguia visualizar. Nos primeiros dias eu ainda virava pra trás se ouvia gente falando português na rua. E pior: algumas vezes eu até puxava papo. Depois fui percebendo como é normal encontrar brasileiros em Londres e deixei de olhar pra trás, de sorrir como quem diz “eu também falo a sua língua” e de puxar conversa. Não demorou muito para eu aprender que, mesmo estando em outro país, não vale a pena falar com alguém só porque essa pessoa fala sua língua.

 

Eu me explico. A questão não é de querer renegar a minha própria raça. Conheci ingleses terríveis, italianos terríveis, poloneses, albaneses, coreanos, americanos, finlandeses, assim como brasileiros terríveis. Tanto aqui quanto no Brasil. Pessoas horrorosas existem em qualquer parte. O problema é que entre muitos brasileiros existe uma coisa que não sei de onde vem, que me incomoda muito. Um certo patriotismo fabricado, superficial e besta. No show dos Rolling Stones eu vi de perto um exemplo disso.

 

Mal chego na arena e já dou de cara com um casal bem característico. A metros de distância já se percebia que os dois eram brasileiros, pelo tom de voz, mas outro detalhe já me chamou a atenção antes de ouvir qualquer coisa: uma bandeira do Brasil. De perto contemplei a cena: o homem tirando foto da mulher, em seus tamancos de plataforma e trajes justíssimos, cobertos pela bandeira como uma manta. Depois outra foto estendendo a bandeira sobre o peito. Depois erguendo acima da cabeça. Com intervalos entre as fotos para ajeitar o longo cabelo e esticar a bandeira, orgulhosa e vaidosa. Por um momento pensei que eles pudessem ter errado de show – uns dias após os Rolling Stones Zezé di Camargo e Luciano se apresentaram também em Londres – e quase fui alertá-los, mas notei que o homem usava uma camiseta dos Stones, assim como botinas e cinto de fivela. Sim, eles estavam no show certo e também pagaram cento e cinqüenta libras para estarem lá, duas fileiras atrás de mim.

 

O show começou e mesmo com toda minha atenção voltada para o palco, não resisti e olhei ao menos umas duas vezes pra trás, pra ver o quão fã o casal brasileiro era. Não flagrei nenhum absurdo – até então. Mas quando o palco móvel veio para o nosso meio, eu pude testemunhar a atitude vergonhosa. Um dos dois pegou a tão amada bandeira, enrolou e jogou direto na cara do Mick Jagger, que sem parar sua performance, jogou de volta com cara de ódio, com razão. Segundos depois três seguranças cercaram o “fã patriota”, que ficou nervoso e quis arrumar encrenca. Não prestei atenção no argumento do brasileiro, mas ele jurava estar certo, usando todos palavrões em inglês que conhecia. Sua acompanhante começou a chorar pela confusão, preocupada também com o rímel que borrava, enquanto o brasileiro, xingando os seguranças, relutando a ser retirado do show, flamejava sua bandeira olhando a todos em volta com cara de “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” ou “sou brasileiro e não desisto nunca”. Não vi o resultado da confusão, pois eu tinha coisa muito melhor para ver. Continuei deslumbrada com o show, apesar da imensa vergonha de ser compatriota de gente assim.

 

No show do Rio de Janeiro é compreensível que tivesse todo tipo de gente reunida no mesmo lugar. Em Copacabana, de graça. E não foi surpresa que sapatos fossem atirados ao palco, como o próprio Jagger ressaltou depois. Eu não me surpreenderia nem com arremesso de sutiãs, afinal, algumas Lucianas erguiam cartazes de “faça um filho em mim”. Outros foram entrevistados pela Globo e, ao vivo, responderam à pergunta do repórter dizendo que sua música preferida era aquela lá, “estabirô” – aquela, “estabirô, I’ll never stop”. Mas na Inglaterra, em Londres, eu pensei que não veria esse tipo de coisa. Mas parece que eu esqueci que Londres está cheia de “nós”. Aquele casal da bandeira foi o exemplo vergonhoso que eu tenho pra contar, mas tirando eles, eu topei com mais uns seis, sete brasileiros no mínimo, só nos arredores da seção onde eu estava sentada. Uns com cara de gente que estava lá porque gostava mesmo, mas esses outros, os que ostentam bandeiras, são os que ficam gravados e os que criam o estereótipo do brasileiro no exterior.

 

Eu nem quero começar nenhum discurso de que “esses brasileiros se enrolam na bandeira e têm orgulho de um país que os ‘força’ a imigrar para trabalhar na ilusão de um futuro melhor”, nem de que “brasileiro beija a bandeira ou em jogo da Seleção ou para aparecer na televisão”, nem de que “essas pessoas se dizem patriotas, mas nem sabem em que dia foi a independência do seu país, muito menos que essa independência foi uma invenção”. Não é nisso que eu quero chegar. Nem quero concluir nada. Só fiquei com aquela vergonha na cabeça e pensando de onde é que vem esse falso patriotismo besta ou essa vontade de aparecer em meio a uma multidão através de um símbolo que nem mesmo quer dizer alguma coisa para essas pessoas. Londres é uma mistura de raças. E se todos naquela arena resolvessem atirar ao palco suas bandeiras? Eu não me lembro de alguma vez ter visto alguém tirando foto abraçado a uma bandeira do Paquistão em um show de rock. Ou Marrocos, Filipinas, Japão, Dinamarca, Colômbia, que seja. No meio de tantas raças, a única bandeira atirada na cara do artista foi uma brasileira. Foi isso que eu vi e que todas as vinte e três mil pessoas viram. E é isso que fica.



Escrito por bárbara às 21h21
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Rolling Stones - parte 1

 

EM LONDRES É DIFERENTE

 

Dia desses voltei da rua depois de mais uma compra impulsiva e fiquei parada um bom tempo de frente para a estante do meu quarto. Já não conseguia encontrar mais espaço para colocar meus novos CDs e DVDs. Não tinha espaço nem para um, que dirá para mais cinco. Essas armadilhas de cinco por £30, quatro por £20 ou “buy one get one free” sempre me pegaram. Mas depois daquele dia, após alguns minutos estática de frente para a minha estante, me dei conta de que eu já não consigo levar tudo isso embora sozinha. Na mala que eu trouxe pra cá já não cabe nem um terço das coisas que eu andei acumulando por aqui. Tranqueiras e relíquias. Tranqueiras e relíquias de promoção – é bom ressaltar. E já me dói o bolso pensar no preço do excesso de bagagem que eu terei que pagar para levar minhas tranqueiras e relíquias de promoção para casa. Desde aquele dia, após meu momento de reflexão e epifania de frente para a estante, parei então de comprar. A próxima vez que eu encontrar “The queen is dead”, “Ziggy Stardust”, “Rubber Soul”, “Exile on main St” por cinco libras, eu vou virar as costas. Ou quando eu achar, por exemplo, a coleção inteira do Godard na prateleira do cineasta em promoção do mês, eu vou fingir que não vi. Em sebos eu nunca mais vou entrar. Livraria do Tate Modern Museum “on sale”, eu vou passar correndo. A decisão é: melhor continuar comprando somente as coisas que não pesam na mala. Nada material, nada físico. A partir dessa idéia, não precisei pensar duas vezes. Comprei meu ticket para ver os Rolling Stones ao vivo. Em Londres.

 

Me custou cento e cinqüenta libras. O equivalente a seiscentos reais. Aqui na Inglaterra dá gosto gastar seu dinheiro de diversas formas. Como estou impossibilitada de gastar com coisas que pesam fisicamente, me pareceu uma forma inteligentíssima de investir minha grana. Eu contei para a minha mãe que parei de investir na bolsa. Já tenho vinte e uma dentro do armário (ok, a piada não teve graça). Mas as bolsas vinham até a mim. Ganhei uma de uma amiga, achei outra sem dono no trabalho e até encontrei uma na rua, com maquiagem e bijuteria dentro. Detalhe: da Prada, com valor estimado de trezentas libras. Até destoa no armário junto com as outras de dez, cinco, duas libras. Mas sei que tudo isso é passado. Melhor eu ficar satisfeita com minhas vinte e uma bolsas, vinte e sete camisetas, sessenta e dois DVDs, quarenta e quatro CDs e trinta livros. Meus porta-retratos, cartões-postais, souvenires (nada como o corretor ortográfico do Word). Ímãs de geladeira, cachecóis, óculos escuros, hidratantes, bottons. Até suporte para ovo cozido eu tenho. Atestado de futilidade? Não acho. Todas essas tranqueiras – e relíquias – ainda vão ser pra mim um dia lembrança de uma época legal da minha vida. E talvez lembrança da única época da minha vida em que eu pude gastar dinheiro em coisas assim. Logo eu volto para a vida do dinheiro contado e faltando já na metade do mês e o luxo de pequenas futilidades vai dar saudade. Então se antes eu assistia a uma peça, comprava uma bolsa, ia a um show, comia em restaurante e comprava filmes tudo ao mesmo tempo, hoje eu apenas assistiria à peça e iria ao show. Restaurante também acaba pesando fisicamente.

 

Eu cheguei cedo. A mulher da bilheteria me aconselhou chegar às 18h30 e eu obedeci. Chegando lá dava pra contar quantos dos vinte e três mil assentos estavam ocupados. Achei o meu, marquei território e fui dar uma volta. Ao ver um quiosque de produtos dos Rolling Stones precisei me concentrar e reafirmar comigo mesma a minha promessa. Sim, as camisetas são lindas, não tão caras, mas pesam fisicamente. Esse livro deve ser ótimo, mas pesa fisicamente. Resolvi voltar para o meu lugar. Comprei um chocolate, uma água mineral e fiquei sentada comportada esperando por eles. E demoraram. O show começou por volta das nove horas da noite. Meu avô geralmente já está dormindo às nove horas da noite. As luzes se apagaram, eu fiquei em pé e segundos depois já ouvi os primeiros acordes de “Start me up”. Não tem como enjoar de ouvir isso. E não é a mesma coisa começar com outra música. O Keith surgindo no palco, logo depois o Mick e por aí vai. Start me up/ I’ll never stop”. E pelo que eu vi eles ainda não estão mesmo a fim de parar. Mick, no show: “Andam dizendo que a gente vai parar. Bom, pelo menos até domingo eu garanto que a gente ainda vai tocar”.

 

E eu dancei e gritei e me deslumbrei mesmo estando sozinha. Estranhei os comportados da platéia. E outros seres deslocados também. Muitos ingleses à minha volta parados no lugar, como se estivessem assistindo a televisão. E outros que saíam no meio do show pra ir comprar batata-frita e voltavam três músicas depois. Duas adolescentes ao meu lado pareciam nunca ter ouvido qualquer música dos Stones. Mas havia uns tipos normais, uns velhos e velhas de cabelos brancos cantando, dançando e gritando como se estivessem quatro décadas atrás. Bonito de ver. Eu esperava a maioria das músicas, mas me surpreendi com outras. E o tempo todo com o Rio de Janeiro na cabeça. E os amigos. Principalmente aqueles dois especiais, que viajaram, se divertiram e sofreram juntos cansaço, insolação e outros males mais que valeram a pena. Uma catarse coletiva memorável. Que se repetiu pra mim, aqui em Londres, só que em menor intensidade. Foi perfeito, mas em outro contexto. O mesmo show, duas vezes. Experiências distintas. Em Londres é diferente. Mas não é melhor.

 

 



Escrito por bárbara às 21h59
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Não esqueço a minha Caloi

parte I

Todo mundo tem uma história pra contar sobre o dia em que aprendeu a andar de bicicleta. Todo mundo, menos eu. Não saber andar de bicicleta era a história que eu sempre contava e nunca tive problemas com isso. Não chegou a ser o trauma da minha infância. Ao contrário. Uma certa época eu comecei até a me orgulhar disso, de ser a única criança que eu conhecia que não sabia andar de bicicleta. Podiam me apontar, rir de mim. Isso não me incomodava. Eu era diferente deles e isso me agradava.

E eu tinha uma bicicleta. Uma Caloi Ceci cor-de-rosa com cestinha na frente. E rodinhas atrás. Todo mundo um dia abandonou as rodinhas, menos eu. Já tentei analisar o motivo de eu nunca ter aprendido, até porque a vida inteira eu tive que responder a perguntas sobre o assunto, mas até hoje não tenho nenhuma resposta surpreendente para dizer. Não era medo, porque eu vivia ralando os joelhos jogando bola queimada na escola ou me intrometendo no futebol dos meninos. O fato de eu ter sido uma criança de apartamento também não justifica, porque meus dois irmãos aprenderam e sempre andaram e andam de bicicleta, mesmo tendo morado boa parte da infância em um edifício comercial bem no centro da cidade, sem pátio ou parquinho – hoje se diz playground. Eu simplesmente não gostava, foi isso. E não queria nem tentar aprender. Então minha mãe disse que ia dar a minha Caloi para alguma criança pobre que não tinha. Eu fiquei contente de imaginar uma menina pobre que sabia andar de bicicleta, mas não tinha uma pra andar, ganhando a minha Ceci. E feliz continuei com as minhas brincadeiras sem rodas nem rodinhas. Sozinha.



Escrito por bárbara às 00h21
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parte II

 

(Ao puxar pela memória as minhas brincadeiras da infância, lembrei de tanta coisa que isso daria um texto à parte, mas tentarei condensar num texto só. O próximo parágrafo é um parêntese e pode ser pulado pelo leitor com pressa)

 

Biblioteca: todos os livros da minha casa tinham na última página uma ficha feita de papel-sulfite com carimbos imaginários feitos a lápis-de-cor com as datas e assinaturas das pessoas que emprestavam os livros da “Biblioteca Centro Comercial”, da qual eu era diretora. Eu dava palpite sobre as melhores historinhas, tirava o pó das estantes, fazia carteirinhas para meus irmãos e alguns amigos que iam a minha casa e cobrava multa de quem devolvia livro fora do prazo.

Farmácia: todos perfumes, cremes e remédios da minha mãe que eu encontrava na casa, eu colocava em ordem alfabética em umas prateleiras do banheiro, colocava a tábua de passar roupa na porta, como um balcão, e atendia os clientes imaginários. Alertava sobre contra-indicações. Perfume importado eu cobrava bem mais caro. Remédio manipulado era mais em conta.

Banco: toda vez que eu ia ao banco com a minha mãe, eu fazia a festa pegando todo tipo de papel que via pela frente, principalmente aqueles para depósito. E com aquela papelada eu fazia o que eu imaginava ser um serviço bancário. Em cima de uma escrivaninha eu atendia telefones, atendia clientes especiais, contava os cruzeiros e tentava gerenciar até as reclamações. Hoje acho assustador o fato de uma criança de sete, oito anos ter um vocabulário tão peculiar, como “cheque sem fundo”, “cheque sustado” e “conta estourada”. Obrigada, papai.

Escolinha: todos os domingos quando almoçávamos na casa da minha avó eu reunia todos meus primos e botava todo mundo sentado numa sala para minhas aulinhas. Era a “Escola da Bárbara” – pouco humilde, não? Não me lembro muito bem o conteúdo das minhas aulas, mas sei que eu gostava de disciplina. Os primos tinham tempo cronometrado para me entregar as tarefinhas e as redações e eu corrigia tudo e colocava aquele sinal de “certo” bem grandão em caneta vermelha. Eu inclusive escrevi um hino que eles deveriam cantar em todo início de aula. Com a mão sobre o peito.

Teatro: nesses mesmos domingos eu fazia toda a família parar por alguns minutos – geralmente durante o Fantástico – para assistir às peças que eu ensaiava durante a tarde. Não, eu não era a protagonista de todas as peças, mas de algumas delas. Escrevia, dirigia e às vezes atuava, principalmente nas peças onde o ator tinha que arrotar, vomitar ou imitar retardado mental. Eu fazia os papéis ridículos. Lembro que eu tinha uns livrinhos de piada do Ziraldo que eu sabia décor e de vez em quando usava de roteiro.

Jornalzinho: eu não podia brincar na máquina de escrever do meu pai, então passava a limpo à mão exemplar por exemplar do jornalzinho semanal que eu fazia aos domingos na casa da minha vó. Um exemplar pra cada membro da família. Nele eu escrevia até um editorial primitivo e colocava uma lista dos aniversariantes do mês, receitas de bolo, crítica gastronômica do almoço do dia, entrevista com os adultos e claro, fofocas e mentiras. Atenção para manchetes como “O Guilherme é gay”, se referindo ao meu irmão.

Barbie: eu tinha uma coleção até que grande e quando eu brincava com uma amiga, eu inventava histórias normais, mas quando ninguém estava olhando – e eu me lembro como se fosse ontem – eu inventava uma história mais bizarra que a outra e a brincadeira durava tardes inteiras. Roteiros que eu não esqueço: “Barbie conhece Ken na rua, se apaixona, eles namoram, ela é pedida em casamento e na véspera do casamento ela sofre um acidente