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Não esqueço a minha Caloi
parte I
Todo mundo tem uma história pra contar sobre o dia em que aprendeu a andar de bicicleta. Todo mundo, menos eu. Não saber andar de bicicleta era a história que eu sempre contava e nunca tive problemas com isso. Não chegou a ser o trauma da minha infância. Ao contrário. Uma certa época eu comecei até a me orgulhar disso, de ser a única criança que eu conhecia que não sabia andar de bicicleta. Podiam me apontar, rir de mim. Isso não me incomodava. Eu era diferente deles e isso me agradava.
E eu tinha uma bicicleta. Uma Caloi Ceci cor-de-rosa com cestinha na frente. E rodinhas atrás. Todo mundo um dia abandonou as rodinhas, menos eu. Já tentei analisar o motivo de eu nunca ter aprendido, até porque a vida inteira eu tive que responder a perguntas sobre o assunto, mas até hoje não tenho nenhuma resposta surpreendente para dizer. Não era medo, porque eu vivia ralando os joelhos jogando bola queimada na escola ou me intrometendo no futebol dos meninos. O fato de eu ter sido uma criança de apartamento também não justifica, porque meus dois irmãos aprenderam e sempre andaram e andam de bicicleta, mesmo tendo morado boa parte da infância em um edifício comercial bem no centro da cidade, sem pátio ou parquinho – hoje se diz playground. Eu simplesmente não gostava, foi isso. E não queria nem tentar aprender. Então minha mãe disse que ia dar a minha Caloi para alguma criança pobre que não tinha. Eu fiquei contente de imaginar uma menina pobre que sabia andar de bicicleta, mas não tinha uma pra andar, ganhando a minha Ceci. E feliz continuei com as minhas brincadeiras sem rodas nem rodinhas. Sozinha.
Escrito por bárbara às 00h21
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parte II
(Ao puxar pela memória as minhas brincadeiras da infância, lembrei de tanta coisa que isso daria um texto à parte, mas tentarei condensar num texto só. O próximo parágrafo é um parêntese e pode ser pulado pelo leitor com pressa)
Biblioteca: todos os livros da minha casa tinham na última página uma ficha feita de papel-sulfite com carimbos imaginários feitos a lápis-de-cor com as datas e assinaturas das pessoas que emprestavam os livros da “Biblioteca Centro Comercial”, da qual eu era diretora. Eu dava palpite sobre as melhores historinhas, tirava o pó das estantes, fazia carteirinhas para meus irmãos e alguns amigos que iam a minha casa e cobrava multa de quem devolvia livro fora do prazo.
Farmácia: todos perfumes, cremes e remédios da minha mãe que eu encontrava na casa, eu colocava em ordem alfabética em umas prateleiras do banheiro, colocava a tábua de passar roupa na porta, como um balcão, e atendia os clientes imaginários. Alertava sobre contra-indicações. Perfume importado eu cobrava bem mais caro. Remédio manipulado era mais em conta.
Banco: toda vez que eu ia ao banco com a minha mãe, eu fazia a festa pegando todo tipo de papel que via pela frente, principalmente aqueles para depósito. E com aquela papelada eu fazia o que eu imaginava ser um serviço bancário. Em cima de uma escrivaninha eu atendia telefones, atendia clientes especiais, contava os cruzeiros e tentava gerenciar até as reclamações. Hoje acho assustador o fato de uma criança de sete, oito anos ter um vocabulário tão peculiar, como “cheque sem fundo”, “cheque sustado” e “conta estourada”. Obrigada, papai.
Escolinha: todos os domingos quando almoçávamos na casa da minha avó eu reunia todos meus primos e botava todo mundo sentado numa sala para minhas aulinhas. Era a “Escola da Bárbara” – pouco humilde, não? Não me lembro muito bem o conteúdo das minhas aulas, mas sei que eu gostava de disciplina. Os primos tinham tempo cronometrado para me entregar as tarefinhas e as redações e eu corrigia tudo e colocava aquele sinal de “certo” bem grandão em caneta vermelha. Eu inclusive escrevi um hino que eles deveriam cantar em todo início de aula. Com a mão sobre o peito.
Teatro: nesses mesmos domingos eu fazia toda a família parar por alguns minutos – geralmente durante o Fantástico – para assistir às peças que eu ensaiava durante a tarde. Não, eu não era a protagonista de todas as peças, mas de algumas delas. Escrevia, dirigia e às vezes atuava, principalmente nas peças onde o ator tinha que arrotar, vomitar ou imitar retardado mental. Eu fazia os papéis ridículos. Lembro que eu tinha uns livrinhos de piada do Ziraldo que eu sabia décor e de vez em quando usava de roteiro.
Jornalzinho: eu não podia brincar na máquina de escrever do meu pai, então passava a limpo à mão exemplar por exemplar do jornalzinho semanal que eu fazia aos domingos na casa da minha vó. Um exemplar pra cada membro da família. Nele eu escrevia até um editorial primitivo e colocava uma lista dos aniversariantes do mês, receitas de bolo, crítica gastronômica do almoço do dia, entrevista com os adultos e claro, fofocas e mentiras. Atenção para manchetes como “O Guilherme é gay”, se referindo ao meu irmão.
Barbie: eu tinha uma coleção até que grande e quando eu brincava com uma amiga, eu inventava histórias normais, mas quando ninguém estava olhando – e eu me lembro como se fosse ontem – eu inventava uma história mais bizarra que a outra e a brincadeira durava tardes inteiras. Roteiros que eu não esqueço: “Barbie conhece Ken na rua, se apaixona, eles namoram, ela é pedida em casamento e na véspera do casamento ela sofre um acidente e fica paraplégica. O amor é tão grande que Ken aceita casar com ela mesmo assim e eles são felizes para sempre”, “Barbie encontra Debby no shopping, elas viram grandes amigas, passam a sair juntas todos os dias até que um belo dia Barbie se apaixona por Debby. Ela toma coragem e se declara. Debby também ama Barbie. As duas viveram felizes para sempre”, “Barbie se casa com Ken, eles estão na lua-de-mel, fazem amor, estão apaixonados, mas com o passar dos dias ela descobre que ele não é o que ela pensava. Ken começa a chegar freqüentemente bêbado em casa e a espancar a mulher. Depois de tempos de angústia Barbie vai à delegacia da mulher, o denuncia, Ken é preso, Barbie encontra Bobby (o Ken do Paraguai) e vive feliz para sempre”. O incrível é que nenhuma dessas histórias era realidade no meu dia-a-dia. Talvez foi a televisão.
Escrito por bárbara às 00h20
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parte III
Eu cresci e já não era mais a única criança que eu conhecia que não sabia andar de bicicleta. O cenário mudou e passei a ser o único adulto que eu conheço que não sabe andar de bicicleta. Até duas semanas atrás. Eu, aos quase vinte e três anos de idade, depois de uma infância recheada de chacotas, decidi dar um final a essa história mal resolvida em minha vida. Não que tenha sido um trauma, como já disse, pois eu vivia muito bem até então sem saber andar sobre duas rodas sem rodinhas. Aprendi, enfim, a andar de bicicleta, em uma tarde gelada de verão na Escócia, entre pinheiros e pedregulhos em uma estrada de chão das Highlands, a cerca de quarenta minutos de carro da cidade mais próxima, Inverness.
Eu estava de férias, passando uma semana no meio do nada em uma caravan na Escócia, entre amigos que sabem andar de bicicleta. Depois dos cansativos porém maravilhosos quatro primeiros dias de viagem, andando muito tempo de carro conhecendo Edimburgo, Glasgow, Isle of Skye e mais outros lugares lindos, resolvemos passar um dia de folga nos arredores do camping, fazendo churrasco e relaxando. A idéia foi completamente deles de alugar umas bicicletas para passear. Eu havia descartado a brincadeira sem graça logo de início, sugerindo uma rodada de truco ou de stop. Mas eles queriam muito e comecei a pensar em como seria triste morrer sem ter vivenciado uma experiência sobre rodas (sem rodinhas). Alugaram as bicicletas e foram passear. Eu quis aprender sozinha. Passei horas tentando aprender sem ajuda nenhuma. E aprendi. Praticamente uma autodidata. Mas ao andar meus primeiros vinte metros em linha reta em cima da bicicleta não me contive e comecei a gritar para todos olharem. Igual criança gritando “Olha eu! Olha eu!”. Me deram os parabéns e eu agradeci, lisonjeada. Levei meus tombos feliz da vida. Minhas canelas e palmas da mão todas raladas, a calça jeans toda suja e eu dando risada. Quando eu via que estava ficando rápido demais e ia cair, eu pulava e deixava a bicicleta arrebentar no chão, até que descobri que existia um freio e não era preciso pular da bicicleta. Que invenção mais genial a bicicleta! E o freio da bicicleta! Vento de verão escocês batendo no rosto. Pensando que eu deveria agora ir trabalhar todos os dias de bicicleta. Pensando na minha criativa infância privada dessa experiência, mas no prazer retardado de uma alegria infantil. E pensando que agora eu já não morro mais na ignorância sobre rodas. De vinte metros para cinqüenta, cem, duzentos metros. Em linha reta, é claro. Fazer curvas ainda é demais pra mim.
Escrito por bárbara às 00h19
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