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Rolling Stones - parte 1

 

EM LONDRES É DIFERENTE

 

Dia desses voltei da rua depois de mais uma compra impulsiva e fiquei parada um bom tempo de frente para a estante do meu quarto. Já não conseguia encontrar mais espaço para colocar meus novos CDs e DVDs. Não tinha espaço nem para um, que dirá para mais cinco. Essas armadilhas de cinco por £30, quatro por £20 ou “buy one get one free” sempre me pegaram. Mas depois daquele dia, após alguns minutos estática de frente para a minha estante, me dei conta de que eu já não consigo levar tudo isso embora sozinha. Na mala que eu trouxe pra cá já não cabe nem um terço das coisas que eu andei acumulando por aqui. Tranqueiras e relíquias. Tranqueiras e relíquias de promoção – é bom ressaltar. E já me dói o bolso pensar no preço do excesso de bagagem que eu terei que pagar para levar minhas tranqueiras e relíquias de promoção para casa. Desde aquele dia, após meu momento de reflexão e epifania de frente para a estante, parei então de comprar. A próxima vez que eu encontrar “The queen is dead”, “Ziggy Stardust”, “Rubber Soul”, “Exile on main St” por cinco libras, eu vou virar as costas. Ou quando eu achar, por exemplo, a coleção inteira do Godard na prateleira do cineasta em promoção do mês, eu vou fingir que não vi. Em sebos eu nunca mais vou entrar. Livraria do Tate Modern Museum “on sale”, eu vou passar correndo. A decisão é: melhor continuar comprando somente as coisas que não pesam na mala. Nada material, nada físico. A partir dessa idéia, não precisei pensar duas vezes. Comprei meu ticket para ver os Rolling Stones ao vivo. Em Londres.

 

Me custou cento e cinqüenta libras. O equivalente a seiscentos reais. Aqui na Inglaterra dá gosto gastar seu dinheiro de diversas formas. Como estou impossibilitada de gastar com coisas que pesam fisicamente, me pareceu uma forma inteligentíssima de investir minha grana. Eu contei para a minha mãe que parei de investir na bolsa. Já tenho vinte e uma dentro do armário (ok, a piada não teve graça). Mas as bolsas vinham até a mim. Ganhei uma de uma amiga, achei outra sem dono no trabalho e até encontrei uma na rua, com maquiagem e bijuteria dentro. Detalhe: da Prada, com valor estimado de trezentas libras. Até destoa no armário junto com as outras de dez, cinco, duas libras. Mas sei que tudo isso é passado. Melhor eu ficar satisfeita com minhas vinte e uma bolsas, vinte e sete camisetas, sessenta e dois DVDs, quarenta e quatro CDs e trinta livros. Meus porta-retratos, cartões-postais, souvenires (nada como o corretor ortográfico do Word). Ímãs de geladeira, cachecóis, óculos escuros, hidratantes, bottons. Até suporte para ovo cozido eu tenho. Atestado de futilidade? Não acho. Todas essas tranqueiras – e relíquias – ainda vão ser pra mim um dia lembrança de uma época legal da minha vida. E talvez lembrança da única época da minha vida em que eu pude gastar dinheiro em coisas assim. Logo eu volto para a vida do dinheiro contado e faltando já na metade do mês e o luxo de pequenas futilidades vai dar saudade. Então se antes eu assistia a uma peça, comprava uma bolsa, ia a um show, comia em restaurante e comprava filmes tudo ao mesmo tempo, hoje eu apenas assistiria à peça e iria ao show. Restaurante também acaba pesando fisicamente.

 

Eu cheguei cedo. A mulher da bilheteria me aconselhou chegar às 18h30 e eu obedeci. Chegando lá dava pra contar quantos dos vinte e três mil assentos estavam ocupados. Achei o meu, marquei território e fui dar uma volta. Ao ver um quiosque de produtos dos Rolling Stones precisei me concentrar e reafirmar comigo mesma a minha promessa. Sim, as camisetas são lindas, não tão caras, mas pesam fisicamente. Esse livro deve ser ótimo, mas pesa fisicamente. Resolvi voltar para o meu lugar. Comprei um chocolate, uma água mineral e fiquei sentada comportada esperando por eles. E demoraram. O show começou por volta das nove horas da noite. Meu avô geralmente já está dormindo às nove horas da noite. As luzes se apagaram, eu fiquei em pé e segundos depois já ouvi os primeiros acordes de “Start me up”. Não tem como enjoar de ouvir isso. E não é a mesma coisa começar com outra música. O Keith surgindo no palco, logo depois o Mick e por aí vai. Start me up/ I’ll never stop”. E pelo que eu vi eles ainda não estão mesmo a fim de parar. Mick, no show: “Andam dizendo que a gente vai parar. Bom, pelo menos até domingo eu garanto que a gente ainda vai tocar”.

 

E eu dancei e gritei e me deslumbrei mesmo estando sozinha. Estranhei os comportados da platéia. E outros seres deslocados também. Muitos ingleses à minha volta parados no lugar, como se estivessem assistindo a televisão. E outros que saíam no meio do show pra ir comprar batata-frita e voltavam três músicas depois. Duas adolescentes ao meu lado pareciam nunca ter ouvido qualquer música dos Stones. Mas havia uns tipos normais, uns velhos e velhas de cabelos brancos cantando, dançando e gritando como se estivessem quatro décadas atrás. Bonito de ver. Eu esperava a maioria das músicas, mas me surpreendi com outras. E o tempo todo com o Rio de Janeiro na cabeça. E os amigos. Principalmente aqueles dois especiais, que viajaram, se divertiram e sofreram juntos cansaço, insolação e outros males mais que valeram a pena. Uma catarse coletiva memorável. Que se repetiu pra mim, aqui em Londres, só que em menor intensidade. Foi perfeito, mas em outro contexto. O mesmo show, duas vezes. Experiências distintas. Em Londres é diferente. Mas não é melhor.

 

 



Escrito por bárbara às 21h59
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