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Rolling Stones - parte 2
ENTRE OUTRAS MIL, ÉS TU BRASIL
Hoje eu me arrependo de não ter registrado minhas primeiras impressões de Londres. Fico agora tentando lembrar os detalhes da minha chegada, os primeiros dias, primeiros choques, primeiros contatos e não lembro mais de tudo. Mas lembro que uma das coisas que mais me assustaram de início foi o tanto de brasileiros que se encontra por aqui. Eu não imaginava. Aliás, eu não imaginava a grande mistura de raças que é isso aqui. Eu tinha noção, mas não conseguia visualizar. Nos primeiros dias eu ainda virava pra trás se ouvia gente falando português na rua. E pior: algumas vezes eu até puxava papo. Depois fui percebendo como é normal encontrar brasileiros em Londres e deixei de olhar pra trás, de sorrir como quem diz “eu também falo a sua língua” e de puxar conversa. Não demorou muito para eu aprender que, mesmo estando em outro país, não vale a pena falar com alguém só porque essa pessoa fala sua língua.
Eu me explico. A questão não é de querer renegar a minha própria raça. Conheci ingleses terríveis, italianos terríveis, poloneses, albaneses, coreanos, americanos, finlandeses, assim como brasileiros terríveis. Tanto aqui quanto no Brasil. Pessoas horrorosas existem em qualquer parte. O problema é que entre muitos brasileiros existe uma coisa que não sei de onde vem, que me incomoda muito. Um certo patriotismo fabricado, superficial e besta. No show dos Rolling Stones eu vi de perto um exemplo disso.
Mal chego na arena e já dou de cara com um casal bem característico. A metros de distância já se percebia que os dois eram brasileiros, pelo tom de voz, mas outro detalhe já me chamou a atenção antes de ouvir qualquer coisa: uma bandeira do Brasil. De perto contemplei a cena: o homem tirando foto da mulher, em seus tamancos de plataforma e trajes justíssimos, cobertos pela bandeira como uma manta. Depois outra foto estendendo a bandeira sobre o peito. Depois erguendo acima da cabeça. Com intervalos entre as fotos para ajeitar o longo cabelo e esticar a bandeira, orgulhosa e vaidosa. Por um momento pensei que eles pudessem ter errado de show – uns dias após os Rolling Stones Zezé di Camargo e Luciano se apresentaram também em Londres – e quase fui alertá-los, mas notei que o homem usava uma camiseta dos Stones, assim como botinas e cinto de fivela. Sim, eles estavam no show certo e também pagaram cento e cinqüenta libras para estarem lá, duas fileiras atrás de mim.
O show começou e mesmo com toda minha atenção voltada para o palco, não resisti e olhei ao menos umas duas vezes pra trás, pra ver o quão fã o casal brasileiro era. Não flagrei nenhum absurdo – até então. Mas quando o palco móvel veio para o nosso meio, eu pude testemunhar a atitude vergonhosa. Um dos dois pegou a tão amada bandeira, enrolou e jogou direto na cara do Mick Jagger, que sem parar sua performance, jogou de volta com cara de ódio, com razão. Segundos depois três seguranças cercaram o “fã patriota”, que ficou nervoso e quis arrumar encrenca. Não prestei atenção no argumento do brasileiro, mas ele jurava estar certo, usando todos palavrões em inglês que conhecia. Sua acompanhante começou a chorar pela confusão, preocupada também com o rímel que borrava, enquanto o brasileiro, xingando os seguranças, relutando a ser retirado do show, flamejava sua bandeira olhando a todos em volta com cara de “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” ou “sou brasileiro e não desisto nunca”. Não vi o resultado da confusão, pois eu tinha coisa muito melhor para ver. Continuei deslumbrada com o show, apesar da imensa vergonha de ser compatriota de gente assim.
No show do Rio de Janeiro é compreensível que tivesse todo tipo de gente reunida no mesmo lugar. Em Copacabana, de graça. E não foi surpresa que sapatos fossem atirados ao palco, como o próprio Jagger ressaltou depois. Eu não me surpreenderia nem com arremesso de sutiãs, afinal, algumas Lucianas erguiam cartazes de “faça um filho em mim”. Outros foram entrevistados pela Globo e, ao vivo, responderam à pergunta do repórter dizendo que sua música preferida era aquela lá, “estabirô” – aquela, “estabirô, I’ll never stop”. Mas na Inglaterra, em Londres, eu pensei que não veria esse tipo de coisa. Mas parece que eu esqueci que Londres está cheia de “nós”. Aquele casal da bandeira foi o exemplo vergonhoso que eu tenho pra contar, mas tirando eles, eu topei com mais uns seis, sete brasileiros no mínimo, só nos arredores da seção onde eu estava sentada. Uns com cara de gente que estava lá porque gostava mesmo, mas esses outros, os que ostentam bandeiras, são os que ficam gravados e os que criam o estereótipo do brasileiro no exterior.
Eu nem quero começar nenhum discurso de que “esses brasileiros se enrolam na bandeira e têm orgulho de um país que os ‘força’ a imigrar para trabalhar na ilusão de um futuro melhor”, nem de que “brasileiro beija a bandeira ou em jogo da Seleção ou para aparecer na televisão”, nem de que “essas pessoas se dizem patriotas, mas nem sabem em que dia foi a independência do seu país, muito menos que essa independência foi uma invenção”. Não é nisso que eu quero chegar. Nem quero concluir nada. Só fiquei com aquela vergonha na cabeça e pensando de onde é que vem esse falso patriotismo besta ou essa vontade de aparecer em meio a uma multidão através de um símbolo que nem mesmo quer dizer alguma coisa para essas pessoas. Londres é uma mistura de raças. E se todos naquela arena resolvessem atirar ao palco suas bandeiras? Eu não me lembro de alguma vez ter visto alguém tirando foto abraçado a uma bandeira do Paquistão em um show de rock. Ou Marrocos, Filipinas, Japão, Dinamarca, Colômbia, que seja. No meio de tantas raças, a única bandeira atirada na cara do artista foi uma brasileira. Foi isso que eu vi e que todas as vinte e três mil pessoas viram. E é isso que fica.
Escrito por bárbara às 21h21
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