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It’s not nostalgia, it’s not loneliness

 

Saudade é uma coisa que não se explica em inglês. Nem em qualquer outra língua. Saudade se sente em português. O que eu posso dizer para eles é que “I miss my family”, “I miss my friends”, “I miss home”, mas ainda não achei uma palavra equivalente para explicar que sinto falta até do barulho da panela de pressão e do cheiro de alho e cebola dourando na panela ao meio-dia na minha casa. Que sinto falta da época em que eu chegava na faculdade, sempre atrasada, e encontrava todos os dias aquele mesmo seleto grupo de colegas adoráveis – amigos. Não consigo encontrar também nenhuma palavra ou expressão em inglês que explique a falta que eu sinto de chegar na outra faculdade, mais atrasada ainda, e encontrar aquela uma, entre tantos colegas, a única amiga – de infância, adolescência e por aí em diante. Das conversas intermináveis sobre a vida, o universo e tudo mais. Não se explica em inglês a falta que sinto de sentar na escadaria do prédio com a irmã que eu escolhi pra mim e passar madrugadas conversando, dando risada ou rodando no ar chumaços de “bombril” pegando fogo como duas crianças. Sinto falta das nossas atípicas diversões. Em inglês eu também ainda não consigo explicar a falta que eu sinto da única pessoa no mundo que consegue me fazer chorar com uma única palavra. Qualquer palavra. Quando algum problema está acontecendo comigo, eu chego de mansinho na cama dela e só de olhar nos meus olhos ela quase sempre adivinha o que é. Geralmente a palavra-gatilho que dispara meu choro é um terno e amoroso “fala”. Daí eu não falo, eu choro. Aqui não dá pra explicar a falta que faz a sintonia incomparável que tenho com as duas pessoas mais adoráveis do meu planeta. Aqueles dois que apareceram na minha casa depois que eu nasci e com quem eu tive que dividir a minha mãe. Desde cedo eu não gosto de competir e deixei eles robarem a mãe pra eles. Ser a mais velha me fez meio independente, mas não ameniza a falta que todos eles me fazem. Sinto falta dos tempos remotos em que eu era a maior, me achava moleque e ganhava as brigas. E até dos tempos em que eu já não era a maior e saía das brigas com vários fios de cabelo a menos na cabeça. Sinto falta do meu companheiro pra todas as ocasiões – desde ir comprar carne no açougue até como co-piloto, me guiando verbalmente enquanto eu dirigia o carro inconseqüentemente em direção a casa na volta do oftalmologista com a pupila dilatada – aquele que eu ainda dou a mão para atravessar a rua e com quem eu nunca briguei. O que faz mais falta se não está em casa. E sinto falta daquele com quem eu ficava “de mal” umas três vezes por semana e que agora faz quase três anos que eu não vejo. Não dá pra traduzir em inglês a falta que eu sinto de quando acordávamos de manhã no mesmo horário para irmos para a aula, trombávamos no corredor sem dar “bom dia”, tomávamos nossos cereais sentados na mesma mesa olhando para os azulejos da parede sem trocar uma palavra, escovávamos os dentes compartilhando a mesma pia e andávamos para a escola em silêncio, tranqüilos. Outras vezes correndo, atrasada, enquanto ele, sempre pontual, andava quarteirões à frente. Havia raros dias em que os dois acordavam com vontade de falar, então andávamos para a escola como dois idiotas falantes, ou dias em que a gente não conversava, mas cantava. Ao pensar nos meus irmãos chego à conclusão de que dá pra se testar o nível de intimidade com uma pessoa através do silêncio que se tem com ela. Se o silêncio é constrangedor ou incômodo, a intimidade é pouca. E a sintonia também. Com eles a comunicação é eficiente mesmo sem palavras. E o amor é imenso. Ainda não entendo pessoas que brigam sério com irmãos. Que passam anos sem se falar. Pra mim é gente que tem uma falha séria no coração. Ando sentindo falta de muita coisa, mas nem tudo eu consigo traduzir, nem tudo eu consigo resolver. Quanto mais eu aprendo sobre outras línguas, mais eu gosto de português. Só assim para explicar a “saudade”, segundo uma pesquisada divulgada pela BBC de Londres, a “sétima palavra mais difícil de traduzir” no mundo. Tentei explicar minha saudade essa semana para uma colega inglesa e ela concordou que lhe faltava palavras para explicar o que eu sentia em inglês. Então eu comecei a me aprofundar no tema e a coisa complicou mais ainda. Eu disse que sentia saudade de alguém que está perto fisicamente, mas extrema e dolorosamente distante de coração. Que a angústia da palavra saudade é uma agonia que envolve passado, presente e futuro, de uma forma às vezes esperançosa, outras vezes sem esperança alguma. Que a saudade dessa pessoa era duplamente angustiante por não saber se é uma ausência passageira ou permanente. Depois tentei explicar outra saudade, de alguém que estou longe por opção. Dessa escolhi ficar longe fisicamente, mas estou muito perto de coração. Que essa saudade dói, mas não maltrata tanto como a outra. O tipo de saudade saudável. E por fim confundi ainda mais a cabeça da minha pobre colega com seu pobre vocabulário anglo-saxão. Eu disse que já sentia saudade de uma ausência que ainda não existe, uma saudade antecipada. Dela e de várias pessoas que conheci aqui. Expliquei que já andava sofrendo por antecedência por deixar Londres e encerrar uma fase tão boa da minha vida. Mas que por enquanto era hora de dar um jeito nas saudades mais urgentes, que estão lá longe, pra depois, num futuro incerto, talvez resolver a saudade que eu vou ter desse presente aqui.



Escrito por bárbara às 23h16
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