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Quero com palmas da próxima vez

Eu não acredito em pessoas que tentam ignorar seus aniversários. Talvez porque eu seja uma pessoa que acredita em aniversários, em Natal, Ano-Novo, Páscoa, Dia da Criança, das Mães, dos Pais, dos Namorados, inclusive aniversários de namoro. Acredito em datas, em momentos, em ciclos. Gosto também de pretextos para comemorações. E aniversário, em especial, é uma data que eu gosto de comemorar – o meu e o dos outros. Gosto de me sentir lembrada no dia em que nasci e de estar com pessoas que me fazem bem. Isso é uma coisa normal, suponho. Portanto, não tente me convencer de que estará feliz sozinho trancado em sua casa na noite do seu aniversário assistindo a televisão e comendo chocolate. Pode até ser verdade, mas para mim é difícil ter empatia por você. Porque eu acredito em abraços, cartões, telefonemas, em apagar velinhas, em brigadeiro e beijinho, em presentes, em restaurante preferido, em festa e até em sentar no bar e encher a cara. Acredito que todo mundo que te olha na rua sabe que o dia é seu. 

Por isso acordei na sexta-feira e dei bom dia para o motorista do ônibus. Ele sorriu porque era meu aniversário. Sexta-feira é o meu dia da semana preferido. Sentei no banco dos deficientes físicos, idosos e grávidas, porque era meu aniversário. Estava vestindo minha camiseta preferida, minhas meias preferidas, mas o tênis de todos os dias – meu preferido. Gastei um tempo maior do que o normal na maquiagem, mas sem exageros, pois embora seja aniversário, não se sai de casa com a maquiagem preferida logo de manhã. Coloquei meus brincos novos. No fone-de-ouvido, a minha banda preferida. Apesar de frio, estava fazendo sol, porque era meu aniversário. E fui trabalhar. Não é a melhor coisa para se fazer no dia do aniversário, mas nem isso atrapalharia meu humor. Mal entro no trabalho e já ouço um “Happy Birthday” todo sorridente de uma colega. Eu já havia recebido os parabéns à meia-noite, outro ao acordar e durante o dia foi uma sucessão de “Feliz-Aniversários” em várias línguas seguidos de abraços. Abraço é bom em qualquer dia do ano.

Não tive nenhum cliente chato nessa sexta-feira, pois todos eles sabiam que era meu aniversário. O trabalho acabou rápido e todo mundo me desejou uma boa tarde e disse que me veria de noite, na festa. Eu fui buscar o bolo, o meu preferido, feito especialmente pela minha tia. A tarde também passou rápido e, entre alguns poucos telefonemas e mensagens de celular, já era noite. Coloquei meu sapato preferido, o verde – a cor que mais gosto – e cheguei atrasada, como de costume. Não era o meu restaurante preferido, nem  meus melhores amigos, mas o restaurante em que eu trabalho com os meus colegas que eu gosto. Pessoas que me fazem bem. Caso contrário, eu não estaria com eles no dia do meu aniversário. E para minha surpresa, quase todo mundo foi, até mesmo as minhas gerentes. Eu tentava fotografar a festa com a câmera que me dei de presente no dia anterior, mas percebi que precisaria dar uma boa lida no manual de instrução antes de me arriscar. Momento ótimo, câmera boa e fotografias péssimas. Talvez a fotógrafa é que seja ruim. De qualquer forma acho que não vou precisar de fotografias para me lembrar desse dia. 

A noite, assim como o dia, passou rápido demais. Quando vi, não tinha mais bolo. Antes de me cantarem “Parabéns pra você” em inglês e sem bater palmas, ganhei um discurso. A minha gerente que eu nunca sei se amo ou se odeio abriu uma garrafa de champanhe e disse que todos eles queriam me desejar um feliz aniversário e boa sorte na minha nova fase. Que eles estavam todos lá reunidos tanto pelo meu dia como para uma despedida. E que eu iria fazer falta. Me deram um presente e um cartão assinado por todos. Alguns colegas escreveram “Feliz cumpleaños” ou algo do tipo, bem orgulhosos por estarem me dando os parabéns na “minha língua”. Já cansei de explicar que eu não falo espanhol. Me perguntavam se escreveram certo e eu respondia “perfeito”. Vale a intenção. Não bebi o champanhe, o que causou um momento de indignação entre alguns, mas taí outra coisa que cansei de explicar. Pra mim é simples: uns não comem carne; eu não bebo álcool. Não bebo e não falo espanhol, mas tem gente que não entende. 

Lembrei do meu último aniversário, o primeiro na Inglaterra. Eu havia acabado de voltar de Liverpool, tinha largado meu emprego e arranjado um novo amigo. Acordei tarde e o dia estava cinza, mas pra mim fazia sol, pois era meu aniversário. Meu tio estava trabalhando, o namorado também, então resolvi passar o dia com alguém que estivesse à toa como eu e que pudesse fazer meu dia mais colorido. Passei a tarde esparramada no sofá comendo chocolate, tomando chá e assistindo o anthology dos Beatles. Eu não estava sozinha. Fomos de noite para um pub, eu, meu novo amigo, meu tio e mais dois colegas. Faltou o namorado, mas o motivo da ausência era compreensível e, fora isso, quem me interessava daqui estava comigo. Mais um aniversário sem fotografias, mas que não passou em branco e o cinza era só lá fora.

Foi o segundo aniversário na Inglaterra, longe de casa. Sinto que a saudade, apesar de continuar grande, agora é um pouco menos doída, talvez calejada. Um ano e meio não é tanto assim, mas é o suficiente para aprender algumas coisas. Uma coisa estranha que aprendi é que dá pra sobreviver longe de quem se ama, mas eu não quero somente sobreviver, por isso escolhi voltar. Não tive o que reclamar desse meu aniversário, mas no próximo eu quero “Parabéns pra você” em português e com palmas. Mais uma fase que eu encerro, com dificuldade, para uma nova começar. Outro dia eu expliquei para a minha prima Sofia que o dente dela ia cair porque tinha um novo querendo nascer e empurrando o dente velho. Que ela tinha que tomar coragem e puxar o dente mole de uma vez só. A Sofia é corajosa. Tá com um sorriso lindo cheio de dentes novos e janelas. Vou procurar sempre pensar em dentes-de-leite nessas horas.



Escrito por bárbara às 00h11
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