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Escrito por bárbara às 20h26
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Eu aguardava minha mochila na esteira quando comecei a ouvir de longe uma canção familiar. "When I’m home, everything seems to be right (...)". Malas de todos os tamanhos e cores desfilavam na minha frente e nada da minha judiada mochila. Do outro lado do vidro, onde eu ainda não conseguia ver, começa outra canção. "Get back, get back, get back to where you once belonged". Eu ainda imaginava que a cantoria poderia ser para outra pessoa, até começar a ouvir gente gritando meu nome e coisas do tipo "Bárbara, cadê você, eu vim aqui só pra te ver". Poderia haver outra Bárbara no meu vôo, mas uma Bárbara com uma mãe louca igual a minha, muito difícil. Quando meu irmão voltou da Paraíba tinha um grupo de forró no aeroporto. Eu volto da Inglaterra e tem uma banda tocando Beatles. E faixas. Umas cinco, bem coloridas, com direito a papel laminado e purpurina me desejando boas-vindas. I got back to where I still belong.

Não me lembro a ordem dos abraços, mas foram muitos. Umas vinte e cinco pessoas que aguardaram os quarenta e cinco minutos de atraso do meu vôo. Abandonei a bagagem no meio do caminho pra abraçar primeiro a mãe, depois os irmãos, o pai. E por aí vai. Na maioria amigos de infância. Penso nos que não estavam no aeroporto, mas que ainda vou rever e sorrio. Nenhum motivo maior me traria de volta a não ser esses poucos rostos familiares que eu posso chamar de lar.

Ao pisar em São Paulo, antes da conexão para Londrina, o primeiro choque – o calor. Começo a tirar as blusas e a suar carregando o casaco pesado. Um ano e oito meses longe desse clima que para ser sincera, eu nunca gostei muito. Me fazia falta um sol de vez em quando, um céu bem azul, uma sombra com brisa e caldo de cana gelado, mas não senti nem um pouco de saudade de entrar num carro quente sem ar-condicionado, de sair do banho e já querer tomar outro, de caminhar meia quadra e já sentir gotas de suor escorrendo nas costas. Disso eu nunca senti falta e mesmo debaixo de neve ou em dias em que o vento parecia cortar meu rosto e eu não sentia mais os dedos dos pés eu ainda pensava que preferia congelar a ficar grudando e escorrendo de suor.

Depois do calor, outros choques imediatos e ridículos. Todo mundo falando português. Tudo bem que eu estava em Londres, onde chove brasileiro e que com facilidade dá pra esquecer a saudade do Brasil (ou relembrar motivos de ter ido embora) – lá se encontra de tudo, para todos os gostos: guaraná antártica, pão-de-queijo, picanha, paçoca, farofa, pinga, goiabada, suco de maracujá, açaí, erva mate, TV Globo, Igreja Universal, revista Caras. Todos os dias se encontra pelo menos uma pessoa na rua falando português – inclusive acredito que Minas Gerais e Goiás estejam despovoados. Mas foi uma sensação boa saber que a partir daquela hora eu poderia falar uma só língua – a minha língua – com todo mundo. Principalmente depois de ter passado um mês viajando por sete países diferentes, tendo como única forma de comunicação uma língua que não é a sua. Chega uma hora que tudo o que você quer é falar sem precisar pensar, usar suas palavras preferidas, escutar todas conversas paralelas e saber que todo mundo entende tudo o que você está falando.

Cheguei em casa e meu quarto estava intacto, exceto pelos móveis novos que minha mãe fez questão de comprar, parcelados em dez vezes sem juros. Eu não precisava de tanto agrado, mas depois que fui descobrir que foi porque meu irmão conseguiu quebrar minha cama em seu período de ocupação em meu estimado aposento. Mas meus livros, meus CDs, minha bagunça estava toda lá, esperando por mim. Eu e uma grande amiga italiana que conheci em Londres concordamos com a mesma coisa: os pais ingleses são cruéis. Na Inglaterra, quando o filho chega na idade de dezesseis, dezessete anos, já sai de casa pra estudar ou trabalhar e, a partir daí, tem que se virar. Até aí tudo bem, mas a crueldade dos pais é que, geralmente, eles pegam o quarto do filho e transformam numa sala de TV, num escritório, numa sala de ginástica, biblioteca. Dão um fim em qualquer vestígio do que um dia foi o quarto do filho e tocam a vida pra frente. Doam os brinquedos, jogam no lixo os trabalhos da escola, os álbuns de figurinhas, os gibis. Se o filho resolver voltar, ele não tem mais seu quarto. Aliás, se ele quiser voltar, será um tipo de fracasso vergonhoso. Crueldade. E o que acaba acontecendo é que o filho vai visitar os pais só no Natal e olha lá. Chegar em casa e encontrar meu quarto intacto foi um tipo de conforto inexplicável. Minha amiga tem seu quarto também intacto na Itália, com seus livros e bonecas na estante mesmo depois de seis anos longe. Talvez a crueldade seja nossa, dos filhos, mas prefiro pensar que não.

Mal cheguei em casa e já tem um irmão se preparando pra ir embora. A família está completa depois de três anos, mas por poucos dias. Quando perguntam para a minha mãe se eu vim pra ficar, ela responde que não sabe, mas que o que ela faz é deixar a gente voar e deixar o ninho preparado para que a gente queira voltar.



Escrito por bárbara às 16h30
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