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Dos meus registros tardios de viagem:

 

“(...) Tinha dias em que eu acordava de manhã e andava pelas ruas até anoitecer, sem olhar no mapa. Quando eu cansava, ia até a estação e pegava um trem para qualquer cidade que desse na telha. Foi assim que cheguei em Viena, Budapeste, Praga, Berlin, Amsterdã. Eu entrava num trem, acordava em um país diferente e passava meus dias andando até anoitecer. Eu não tinha pressa, nem rotas ou grupos para seguir. Não tinha bilhetes comprados nem reservas de hotel. Não tinha objetivo. Eu acordava e a cidade estava lá.”

 

Um pé aqui e outro sei lá

 

De volta agora ao Brasil talvez meu ritmo ainda não tenha desacelerado. Meus dias em Londrina têm sido de um conforto angustiante. Eu ainda penso que estou a passeio. Com a cabeça em algum outro lugar que eu não sei exatamente qual é. E foi num lapso que desci na rodoviária em São Paulo sem saber o que é que eu tinha ido fazer lá. Inventei dois os três compromissos para responder quando alguém perguntasse, mas eu não tinha rumo algum. Ainda estava no esquema de entrar num trem, chegar num lugar e andar até anoitecer, pra só então pensar no que vem depois. Eu acordei e São Paulo estava lá. Só que dessa vez eu não estava sozinha. Eu andava e tinha alguém do meu lado não entendendo nada. Foi difícil criar propósitos convincentes.

 

Essa semana peguei outro ônibus de novo com alguém do meu lado querendo explicações. Assumi deslavadamente minha total falta de motivo da viagem e confessei minha vontade inexplicável de simplesmente estar de volta à estrada. Eu acordei e Curitiba estava lá. Mais alguns passeios e reencontros. Depois de alguns dias meio desnorteada, me veio a estranha necessidade de ir embora pra casa. Me vi na rodoviária mais uma vez em uma partida impulsiva. Não deu pra explicar que o incômodo que eu estava sentindo nada tinha a ver com eles. Inventei problemas para resolver, reuniões para atender. Me acharam estranha e não me importei. Eu acordei e Londrina estava lá. Ainda noite, às cinco da manhã. Meus compromissos dessa vez eram completamente adiáveis, mas cumpri a todos como se empenho e disposição fossem resoluções de ano-novo. Eu só queria estar em casa.

Agora não faz nem dois dias e minha vontade de casa já passou. Em pouco mais de vinte e quatro horas em Londrina já planejei mais quatro viagens para o próximo mês, antes da hora de acordar pra vida de vez – voltar às aulas, procurar emprego, esse tipo de atitude. Amanhã São Paulo novamente, quinta-feira Guarujá, carnaval em Ribeirão Preto e formatura em Curitiba mais uma vez. Quando 2008 começar – lá no final de fevereiro – eu prometo que sossego num lugar só.



Escrito por bárbara às 00h21

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