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Livrai-os do mal, amém
Ouvi dizer que já fizeram uma pesquisa sobre como as pessoas se transformam quando estão dentro dos seus carros. Não sei qual foi o resultado da estatística, mas uma grande porcentagem das pessoas observadas de fato faziam dentro do carro coisas que jamais fariam fora dele, na rua. Colocam o dedo no nariz, xingam, cantam, conversam sozinhas.
Eu estava cantando. Alto. E já estava chegando perto de casa quando tive que frear bruscamente. Um gato branco decidiu atravessar a rua correndo enquanto eu cantava “you really got me, you really got me”. Parei o carro assustada e não vi o gato. Ele não fugiu. Estava embaixo do carro. Embaixo de uma das rodas, talvez. Olhei para o lado e vi a dona com as duas mãos tampando a boca e um olhar apavorado, estática. Continuei imóvel. A dona também. Depois de alguns segundos vi um vulto branco ligeiro saindo de baixo do carro. O gato. São e salvo. A dona levou as mãos à testa e saiu atrás do bicho. Eu segui em frente. Com o coração na boca.
Certa vez eu vi um cachorro sendo atropelado. A paisagem era das mais belas, eu esperava os carros pararem para atravessar a avenida que beira o mar na Barra da Tijuca, no Rio. Ninguém avisou o cachorro que ele também tinha que esperar. Ele parecia muito feliz enquanto corria em direção à praia. Foi atingido antes de chegar. O carro seguiu adiante. O cachorro uivava de dor e, todo machucado, ainda conseguiu correr para algum lugar. Eu era bem nova e a imagem ficou um bom tempo na minha cabeça. Somente aquela imagem e não o resto. Não sei o que aconteceu com o cachorro depois. Só sei que ele fugiu pra longe daquele lugar e eu fui pra praia.
O gato estava vivo. Eu respirei aliviada e assisti ao reencontro com a dona pelo retrovisor. Pensei no cachorro da Barra da Tijuca. E pensei em escrever um texto, depois de tanto tempo. Pode parecer estranho, mas essa noite eu agradeci pela vida do gato. E pedi mais outras sete para outro que está precisando.
Escrito por bárbara às 14h32
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